Friday, February 03, 2006

De uma noite de Dezembro (6):



=== === ===

Passavas hoje por mim, anónima.
Subiste, enfileirada, na escada da distracção que escolheste, por vontade ou falta dela. Gostaria de te dizer que sorri por dentro, ou de te ter sorrido por fora. Não fiz nenhuma das coisas. Não repudiei. Acenei, quase sombrio, ao silêncio, e a noite fez-se continuar de noite. Não gritei, portanto, nem para fora nem para dentro, não tinha o que gritar, para quê? Não alimentei o teu escárnio do superficial, a tua retirada dos sentidos assentes, o teu lado político em regime dividido, no intervalo entre o desejo de austero e o mero constatar entrecortado, sem grande espírito. Fechei, a menos de frestas, a porta a psico-dramas de suposições. Lá no alto do teu caminho recto olhaste-me, num após. Interpelaste-me. Fomos, casuais, e lá voltámos um outro tanto. De tudo isto, só espero uma coisa: que naquelas fracções de segundo que parecem queixas infinitas não me tenhas odiado. O resto é vago e incontornável de tão eu.
De novo abandonado pelo meu sentido estático e marginal.
De uma noite de Dezembro (5):




=== === ===

Pois afinal é sempre tão simples apanhar um solavanco e transformá-lo no nosso novo embalo de fingir... E quase esquecer tudo, embora esteja sempre lá, no tilintar do gesto. E as horas... Meu Deus as horas! Uma vontade enorme de chorar vastidão. Um sonho sem noite, sem espaço, sem tempo. Os restos. As conotações dos sempres mergulhando em convulso. Uma vontade de pegar na guitarra e esperar que ela me absorva o choro e o pensamento. A dócil madrugada quase calma. Uma divertida lotaria de palavras de sempre, dos gestos escritos de sempre, apenas baralhados de forma diferente mas os naipes esses não mudam nunca.
Adoro-te, alguém como eu. Sejamos tudo, tu que não ouves, e eu que não sou. Adoro-te chorosamente. Esta noite és tu.
Mas não vale a pena perder estes abraços, se nada há. Mas valerá a pena guardá-los ou será uma falsa missão disfarçada? Não sei bem, pode ser apenas o estancar anti-pervasividade de certas respostas descontroladas e gritantes na sua surdina stressada. Mas haverá correlação? Já não sei bem. Mas haverá alguma sim. Acredito por agora que sim, sem intuição, mas com uma vaga lembrança sem essência da conclusão propriamente dita. Mas este sou eu, à partida, pelo menos na medida em que não há aqui grandes enleios de projecção pretenciosa expectante de um âmbito de reconhecimento social de alguma espécie. Ou é só o querer repetir as frases que já ouvi, os estigmas institucionalizados num determinado enquadramento? O encontrar-me a que estou curvado resumir-se-à ao revolver bibliotecas de outros faladores, outros seres adjuntos, sem concretamente, mas sim ao género subentendido por algum estrato e que eles representavam, nos padrões de entoação, construção e escolha de prioridade semântica? Mas não... se o que eu busco é um afastar-me de fugas e regras, o fraseio nesse sentido é um passo secundário. A importância está no quanto de advento é colocado nessa vertente. Para tal, minimizar assim é automaticamente ressequir demandas de falsidade e focalizar o bem-estar e descontracção, gradual evidentemente, pois não se manda na mente, modera-se-la ciclicamente, verga-se-la amigavelmente. Poetiza-se a distracção após cada algo necessário enquanto sentido. Escolhas e refinamentos sem maior drama ilusório que o do riso ou do sorriso. Ainda bem que existe tal, suponho. Mesmo que possa não se estar disposto a reconhecê-lo, dada a fatalidade, é contudo necessariamente uma regalia que de outra forma se lamentaria não existir, por omissão. Assim o especulo, pequenos requintes como os que passaram e passarão.
De uma noite de Dezembro (4):



=== === ===

Afinal porquê tudo isto? Só porque não fui tão divertido na tua acepção - só porque não correspondo aos moldes de pessoa esculpida em que enclausuras a diversão. Só por isto, justificavam-se tantas páginas mortas ao vento? Enfim. Foste uma história muito confusa, tristemente confusa, independentemente de quão triste ou alegre não chegava a ser. O que perdi? Tempo e células. O que ganhei? Duvidoso. Mas ganhei o fio do percurso até aqui, como sempre. Logo estas questões não se colocam. Resta agora perceber de verdade, quem se esconde em todo o lado. Continuar a inutilidade destes desvios sem horários. Tentar ceder o mínimo. Ser eu, pois sou o único valor que tenho. Tentar sossegar os corações aflitos nos meus instantes pós-ímpeto e os inconformados corações nas horas que se lhes seguem.
De uma noite de Dezembro (3):




=== === ===

Há um impasse entre o eu que se dirige ao outro e a desistência em forma de frase, trejeito ou pânico até. As visões de completude perdem-se, agora. Por trás, a partilha apenas?
Não sei. Quando vos busco, é ao riso brutal e pleno de mim. Mesmo que morra a mensagem, o momento e o resto até. Drogas? Para quê, se existo? O mar é atraente quando se dão umas braçadas. Estou a remar meio cá meio lá.
As ruas do centro comercial, quando as dispo, reflectem a minha vontade de ser reflectido. Atordoa, ter os aquilos tudos em suspenso, enquanto se poliniza uns momentos. Mas o afastamento já se ditou inadequado. Conduziram-me ali e agora compete-me largar os freios. Recuso-me a encarar isto como uma aprendizagem, num sentido maior e místico e social. É uma aprendizagem, se quisermos, mas técnica e de libertação. O etc., pensei e observei anos a fio. No centro falei às pessoas. É escusado de facto falar em silêncio. É importantíssimo dizer, dizer, dizer. Ir ao encontro do coração em abandono e respirar. Aos poucos, e apesar de ninguém estar disposto a compreender. O frémito - de novo, o frémito. Mas desta vez, em forma de frémito. Irreais, as voltas dadas neste sem-espaço da mente. Percorri montanhas de emoções, relativamente opostas, e agora, espairo-me em frémito de verdade.
Tudo foi igualmente de verdade, claro. Infelizmente, as rédeas são bem reais.
De uma noite de Dezembro (2):




=== === ===

Do esforço da manhã, nasce uma rua rectilínea como a missão de se estar mal disposto por omissão, e pela inconsciência menos culpada das pedras e dos buracos entre algumas das pedras. As intrínsecas pessoas já fardadas de em redor e de típico englobam já a descrença implícita às suas crenças. Globais, assomo-as de uma interdisciplina qualquer de indiferença geral. Teço pequenos bordados pictóricos e esperançosos em que dos carris do Metro, ou das memórias, emanam risos e sorrisos interpessoais e singulares, e habito alguma intenção instantânea de bem-estar, ou estar, apenas. Inserção em pequena escala repete-se e repercute-se em emoções de simplicidade que dão espaço ao ténue parto universal, da potencial liberdade, exagerado oh, sem cinematográficos rodopios de ballet intelectual, meros círculos descentrados de alguma saúde em anexo, e um eu constante, em despertar vago e cauteloso. Na selva interior ecoa um também exagerado despertador, e densos, os gritos de alarme querem também ser ouvidos em egoísmo religioso. Palpitam a par com o antagónico assentar pés, pouco ou muito descalços de botas combatentes. Evita-se o arrasto mas também o petrificante, sem fórmulas para lá da osmose respiratória e espiritual, adversos zumbidos e tons. Acredita-se de quando a quando nas tentativas pontuais, e assim se evita cair morto, logo de manhã, na vida.
De uma noite de Dezembro (1):



=== === ===

Mais uns exercícios de auto-flagelo lívido e teórico, por assoar. Quando as pontas dos dedos drásticos levam as deles avante...
Permito-me arrastar, aos poucos mais, com a falsa condescendência de quem não assume um erro, e aguardo o fatal desenrolar dos acontecimentos que espiolho desnaturadamente sequioso e por existir. Os pequenos trechos de dia, que, por vezes, trancam de contenção a fechadura que faltava. A contenção de contenções esvaída alimenta o jardim contraditório de uma flor, várias vezes ao dia associal e vendido. Os negócios incessantes de miniaturas num mercado negro de escondido, em clímax de transacções por debitar. A lentidão absurda em gestos intensos de vazio preemptório e nervoso, a água prestes a ferver numa chaleira frígida.
E nisto, mais suspiros alternam mais irrequietude, e por fim mais suspiros. Uma voz suave, serena, e pacífica de apaziguamento envolvente por fim, não se ouve, e sem impacto esmorecem-se prenúncios de mudança.
Enquanto isso, viram-se mais páginas sempre incompletas do livro idêntico.